Onde estás?
Hoje sinto tanto a tua falta.
Apetece-me fazer como antigamente, quando permanecias no teu velho cadeirão, como se fosses um rei no seu trono de sonhos e lirismo, e eu me sentava no chão em silêncio, a olhar para a chuva, a beijar a sujidade rugosa das vidraças, remetida ao meu corpo e à minha doentia tendência para mergulhar nos rios dos pensamentos, onde flutuava à tona de água mesmo sem saber nadar. Onde teimava em crescer intelectualmente, como se o meu destino fosse esse louco desejo de viver prematuramente a inocente sabedoria da menina que era com 7 anos de idade, com tendência para a introspecção.
Onde estás?
Sinto saudades da tua respiração, do teu ar jovem, da forma como auscultavas os meus estados de espírito, quando armado em raposa astuta, me olhavas de soslaio pelo canto do olho, como se procurasses decifrar o chilrear dos pássaros, que por vezes se abeiravam da janela.
Sim, tenho saudades quando com a tua voz timbrada e serena me dizias com a repetição de um disco riscado: - O que foi agora minha pequenina?
Aí do céu, consegues dizer às estrelas que me libertem desta nebulosidade intensa, que se apoderou hoje do meu coração?
É que eu, preciso ver-te.
Hoje preciso que me dês a mão, como o fazias quando me levavas contigo a andar de baloiço. Preciso que ralhes comigo com a mesma transparência com que me oferecias com os teus ensinamentos, os rebuçados que guardavas nos bolsos.
Onde estás?
Preciso ouvir-te alertar-me de novo, como quem espalha uma profecia divina, que a realidade do mundo não são os sonhos que tão prematuramente se apoderaram da minha alma. Sim, sim, preciso que me alertes, mas que me digas como antes, que apesar de tudo são esses mesmo sonhos que nos devolvem a alegria de viver.
Quero beber dos teus olhos a tua sabedoria, a tua sensibilidade extrema, mas hoje não te vejo, onde estás?
Tu sempre me ensinaste a seguir a claridade transparente dos caminhos, sempre. E agora, quem me orienta?
Sabes? Tu foste acima de tudo o meu melhor amigo, nos meus tempos de menina feliz e sonhadora. Agora, todos juntos te vamos homenagear com o maior dos orgulhos, porque foste alguém importante e porque serás sempre uma marca para a tua Terra.
Sendo assim, vou secar as lágrimas que me beijam neste momento as faces. Tu estás afinal aqui, neste momento.
E agora, afaga os meus cabelos como o fazias quando eu estava mais triste. És mais que Vida.
Amo-te daqui ao céu. <3
AMo te*